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Abra a sua mente para a Educação 3.0


Ao entrar na sala de aula, o professor nunca pergunta se o aluno trouxe caderno, livro ou caneta, pois esses itens sempre fizeram parte do contexto da aula, e em alguns casos parecem até mesmo ser invisíveis, de tão habituados que estamos a eles.

Mas será que foi sempre assim? Não, a história nos mostra que houve outras tecnologias além do papel impresso. O pesquisador e autor, doutor em Ciência da Informação, Carlos Nepomuceno, estudioso da Educação 3.0, pontua que a “escola atual, chamada de 2.0, é filha do papel impresso que surgiu em 1450”. E que, anteriormente à escrita impressa, a forma de comunicação era o gesto. Conforme “caminhamos na história” (expressão utilizada por Nepomuceno), a tendência natural é que as tecnologias sejam cada vez mais aprimoradas e acabem por se transformar completamente, dando lugar ao inimaginável.

Como explicar essas revoluções ao longo da história?

Nepô, como é carinhosamente chamado pelos seus interlocutores, explica e fundamenta seu trabalho na Escola Canadense de Comunicação, cujo principal representante é o renomado pesquisador Marshall McLuhan, e aponta que, para compreender a revolução digital pela qual passamos nestes tempos, três dimensões distintas precisam ser compreendidas. São elas:


A primeira dimensão a ser apresentada em detalhes é a Filosófica, que responde às seguintes perguntas: Quem é e como pensa o homem?

Vamos à primeira: Quem é o homem?
“O homem é uma TECNOESPÉCIE”, defende o estudioso, pois, desde os primeiros registros de sua presença, há mais de 2 milhões de anos, na Idade da Pedra Lascada, faz uso de tecnologias. Os primeiros artefatos produzidos foram destinados a “viabilizar” a sobrevivência humana. Uma talha ou uma pedra lascada servia como arma para defesa ou ferramenta para qualquer tipo de corte; a pedra lascada era um aparato tecnológico muito potente para a época. Depois dela foram produzidos milhares de novos aparatos tecnológicos para facilitar a vida humana.
Podemos afirmar que nós, homens, no sentido genérico, não sobrevivemos sem a tecnologia e nos modificamos a partir da chegada de novas tecnologias. E, ao nos modificar, alteramos também a sociedade e a cultura (TECNOCULTURA). Toda vez que houver alguma mudança de mídia, vai haver mudanças profundas na sociedade.

Segunda pergunta de ordem filosófica: Como pensa o homem?
Em geral, o pensamento pode ser indutivo ou dedutivo. Vamos entender.
Pensar de forma indutiva é basear o pensar em argumentos que partem de uma premissa ou experiência particular para atingir uma conclusão universal. Um exemplo de aplicação: meu avô tem 65 anos e tem manchas na pele; logo, todas as pessoas de 65 anos terão manchas na pele. O que não é uma verdade. Nesse caso, partimos da observação particular e estendemos a conclusão como máxima para o todo. Portanto, o pensamento indutivo vem de nossas percepções por meio de uma experiência particular, por isso pode ser desastroso torná-lo uma conclusão universal.
Já o pensamento dedutivo baseia-se em uma enumeração detalhada de fatos e argumentos para obter uma conclusão a respeito de determinada premissa. A lógica permeia a dedução. Busca-se ter um princípio reconhecido como verdadeiro e inquestionável, em geral uma premissa maior, a partir da qual o estudioso faz relações com uma premissa menor. Ambas são comparadas de forma lógica para ser possível chegar a uma conclusão. Exemplo de pensamento dedutivo: todo vertebrado possui vértebras. Todos os cães são vertebrados. Logo, todos os cães têm vértebras.
Por isso, Nepomuceno chama atenção para um pensar dedutivo, baseado na lógica, com amplitude de aplicação, como possibilidade para enxergar a revolução digital, pensando no todo, e não no particular.

Percepção e realidade
Outro fator fundamental inserido no questionamento de como pensa o homem são as noções de percepção e realidade. Realidade é o estado das coisas como elas realmente existem, ao invés de como elas podem aparecer ou como podem ser pensadas para ser.
Já a percepção envolve um processo de acumulação de informações sensoriais e pode, por vezes, nos levar a uma visão parcial.
Para compreendermos melhor, vamos recorrer à fábula dos seis sábios cegos.
Numa cidade da Índia, viviam seis sábios cegos. Como os conselhos que davam eram sempre excelentes, todas as pessoas que tinham problemas recorriam à sua ajuda.
Embora fossem amigos, havia certa rivalidade entre eles, e de vez em quando discutiam sobre qual deles seria o mais sábio.
Certa noite, depois de muito conversarem acerca da verdade da vida e não chegarem a um acordo, o sexto sábio ficou tão aborrecido que resolveu ir morar sozinho numa caverna na montanha. Antes de sair, disse aos companheiros:
Somos cegos para que possamos ouvir e entender melhor que as outras pessoas a verdade da vida. E, em vez de aconselhar os necessitados, vocês ficam aí discutindo, como se quisessem ganhar uma competição. Não aguento mais! Vou-me embora.
No dia seguinte, chegou à cidade um comerciante montado num enorme elefante. Os cegos nunca tinham tocado em um animal como aquele e correram para a rua ao encontro dele.
O primeiro sábio apalpou a barriga do animal e declarou:
Trata-se de um ser gigantesco e muito forte! Posso tocar nos seus músculos e eles não se movem; parecem paredes…
Que palermice! – disse o segundo sábio, tocando nas presas do elefante. – Este animal é pontiagudo como uma lança, uma arma de guerra…
Ambos se enganam – retorquiu o terceiro sábio, que apertava a tromba do elefante. – Este animal é idêntico a uma serpente! Mas não morde, porque não tem dentes na boca. É uma cobra mansa e macia…
Vocês estão totalmente alucinados! – gritou o quarto sábio, que mexia nas orelhas do elefante. – Este animal não se parece com nenhum outro. Os seus movimentos são bamboleantes, como se o corpo dele fosse uma enorme cortina ambulante…
Atenção! Todos vocês, mas todos mesmo, estão completamente errados! – irritou-se o quinto sábio, tocando a pequena cauda do elefante. – Este animal é como uma rocha com uma corda presa ao corpo. Posso até pendurar-me nele.
E assim ficaram horas debatendo, aos gritos, os cinco sábios. Até que o sexto sábio cego, o que agora habitava a montanha, apareceu conduzido por uma criança.
Ouvindo a discussão, pediu ao menino que desenhasse no chão a figura do elefante. Quando tateou os contornos do desenho, percebeu que todos os sábios estavam certos e enganados ao mesmo tempo. Agradeceu ao menino e afirmou:
– É assim que os homens se comportam perante a verdade. Pegam apenas numa parte, pensam que é o todo e continuam tolos!

Com essa fábula, que é autoexplicativa, concluímos a parte 1 sobre a base filosófica da Educação 3.0. Na próxima semana, voltaremos com a parte 2, aprofundando e concluindo a dimensão apresentada. Na sequência, serão apresentadas as outras duas dimensões: teórica e metodológica. Até lá!





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