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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

O que há ainda para além das linhas em 2017? - Compreender para combater o “PRÉ”-conceito étnico-racial

Esse case verídico serve para ilustrar que o preconceito e a discriminação, presentes no nosso dia a dia, por vezes nos passam despercebidos, mas a questão é séria e precisa de um olhar mais profundo.

Inspirada e fundamentada nas ideias do consagrado professor doutor Kabengele Munanga, especialista em racismo, identidade, identidade negra, África e Brasil, a quem tive o prazer de escutar, foi possível compreender que a discriminação nasce da PERCEPÇÃO DAS DIFERENÇAS entre si mesmo e os outros, entre os membros do próprio grupo e aqueles dos outros grupos. É a partir dessas diferenças que se formam os preconceitos e as discriminações, e as ideologias delas decorrentes.

A sociedade é organizada em classes sociais, formada por burgueses, a classe média e os pobres. Essas classes são cercadas por preconceitos, a ideia de superioridade ou de inferioridade, que torna vítimas os considerados inferiores. Não apenas as classes, mas as diferentes formas de preconceito levam a vários modos de discriminação, desde religião, gênero, profissão, idade, etnia, cultura, nacionalidade e tantas outras formas.

RAÇA E RACISMO: como nasce a ideia de raça?
Há pessoas que concentram maior número de melanina, por isso têm pele, olhos e cabelos mais escuros, enquanto aquelas com menos quantidade dessa substância apresentam cabelos, pele e olhos mais claros. A melanina, que serve para manter a sobrevivência do corpo humano, apresenta uma coloração marrom, e sua principal função é proteger o DNA contra a ação nociva da radiação emitida pelo sol. A raça nasceu dessa relação com a cor da pele.

Analisamos, por meio da história da humanidade, que, com as descobertas a partir do século XV, os navegadores europeus, espanhóis, portugueses e outros entraram em contato com os povos ameríndios, africanos, aborígenes da Oceania e constataram diferenças físicas e culturais que os fizeram até mesmo duvidar se esses nativos eram pessoas ou “feras”, animais irracionais. Os colonizadores não só escravizaram os negros e índios como achavam que apenas os humanizariam se os convertessem ao Cristianismo. Essa situação perdurou até o século XVII. No século XVIII, os Iluministas colocam em discussão, agora não mais à luz da religião, mas sim da razão, o conceito de RAÇA. E os estudos da raça se ampliam até o século XX, quando foram definidas não só as características genéticas e a morfologia das raças como também os marcadores genéticos encontrados em componentes do sangue.

Porém, no fim do século XX, aconteceu um fato curioso. Estudos mostraram que um indivíduo A, da raça negra, poderia ser mais próximo geneticamente do indivíduo B, da raça branca ou amarela, do que de outro indivíduo C, da raça negra. Dessa forma, foi concluído que essa classificação da humanidade em raças não era operante, pois partia de critérios que não se diferenciavam cientificamente. Foi aí, no século XX, que abandonaram o conceito de raça, pois chegaram à conclusão de que não havia como classificar a diversidade humana em raças fixas. Até aqui, tudo estava bem, mas os cientistas anteriores ao século XX cometeram um erro grave que ainda hoje pesa nas relações humanas. Eles classificaram as raças, hierarquizando-as em raças superiores e inferiores, e dessa classificação e hierarquização nasceu o chamado Determinismo biológico.

Como exemplo da aplicação do determinismo biológico poderiam surgir as seguintes afirmações: todo americano é inteligente; todo português é burro; todo africano é negro; e todo europeu é branco. O que definitivamente não é verdade.

O mais grave é que essa corrente determinou a superioridade e inferioridade dos povos e etnias com base nas diferenças biológicas contidas no DNA.

Dessa forma, os que têm pele mais clara foram rotulados como os mais bonitos, mais inteligentes, com características morais superiores e de cultura superior comparativamente aos que não são brancos. E aí se mostra o racismo, que saiu dos livros e tomou conta do imaginário social coletivo, infelizmente.

Na próxima coluna, vamos trazer relatos sobre como o preconceito e a discriminação étnico-raciais são expressos e de que forma os pais e professores podem trabalhar em casa e na sala de aula para ajudar as crianças, os jovens e os adultos a pensar um mundo mais humanitário e solidário, em que todos convivam em harmonia e se acolham.
Até lá!


O conceito de determinismo biológico afirma que as características físicas e psicológicas do ser humano são determinadas por sua raça, nacionalidade ou por qualquer outro grupo específico ao qual ele pertença.” (Fonte: http://www.clickescolar.com.br/determinismo-biologico.htm).


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O sertanejo repaginado na arte de Luiz Gonzaga

Selo comemorativo do centenário do Rei do Baião (2012), por Jô Oliveira.





























Para a maioria dos brasileiros a música de Luiz Gonzaga é a mais pura expressão da cultura popular do Nordeste. Melodias de sonoridade triste, que sugerem a penúria das condições de vida dos sertanejos dessa região do Brasil, vitimados pela seca e pelo abandono, se intercalam com levadas furiosas do fole da sanfona, símbolo máximo da alegria, expressando uma gente que, a despeito de todas as condições de vida, confirma a qualidade de força e resistência que um dia Euclides da Cunha utilizara para se referir às gentes dos sertões que ele conhecera de perto.

Mas quem viaja na regionalidade da música do Gonzagão dificilmente vislumbra as condições a partir das quais nasceria esse ícone da vida do Nordeste. O berço de sua arte paradoxalmente não foi seu Pernambuco natal nem as paisagens únicas do semiárido, mas o Rio de Janeiro capital do Brasil onde vai viver a partir de 1939. É ali, embalado pelas ondas da Rádio Nacional, onde a música acontece no país, que Luiz Gonzaga vai compor na medida perfeita o tipo que o consagraria: uma versão do homem do sertão adaptada à realidade urbana de um Nordeste que se reorganiza nas grandes cidades do Sudeste, para onde levas intermináveis de filhos da seca migram em busca de melhores condições de existência.

Para compor o seu personagem, Gonzaga contaria com a ajuda de outro nordestino radicado no Rio de Janeiro, o cearense Humberto Teixeira, advogado e poeta com quem acabaria sendo responsável por vários clássicos da canção popular brasileira. Mas, mais que uma parceria, Luiz Gonzaga expusera ao novo amigo suas ideias a respeito de criar algo que funcionasse como um movimento de recriação da música do Nordeste. As linhas mestras dessa concepção já estavam fixas na cabeça do músico, que a essa altura já havia trilhado um percurso considerável como instrumentista, gravando discos e participando dos famosos programas de rádio.

A sanfona, um símbolo da cultura nordestina, seria um dos primeiros alvos dessa espécie de releitura proposta por Luiz Gonzaga. No leiaute típico com que passaria a se apresentar aparecia sempre com a sanfona de 120 baixos, que era como a última geração do instrumento na comparação com os tradicionais foles, de apenas oito baixos, com que músicos nordestinos se apresentavam. Um símbolo de modernidade e contemporaneidade, portanto, com que Gonzaga começava a sugerir uma nova forma de compreender a cultura de sua região de origem.

O próprio figurino por ele utilizado seria uma importante inovação. Diferente da forma com que costumava se apresentar nos shows e programas de rádio, com camisa, terno e gravata, Luiz Gonzaga agora assomava os palcos com a vestimenta típica do vaqueiro do sertão, o gibão que protege dos mandacarus e o inconfundível chapéu de couro, que Gonzaga enfeita com figuras geométricas e imagens sacras, sugerindo de carona a presença de outro grande ícone da cultura nordestina, que foi Lampião. Vale lembrar que o Rei do Cangaço tinha morrido em 1938, apenas alguns anos antes das primeiras aparições de Gonzaga, de modo que o conjunto de lendas, contos populares, cordéis e até mesmo as reportagens um tanto quanto ficcionais envolvendo seus feitos, configurando-o como um símbolo de bravura e resistência para os nordestinos, é algo ainda bem fresco na percepção popular.

Mas a grande cartada de Luiz Gonzaga seria mesmo em sua estética musical. O termo “baião” só era usado até então no círculo restrito dos violeiros do Nordeste e pouco tinha a ver com o ritmo desenvolvida pelo artista. O formato tradicional de execução do baião, com o trio formado por sanfona, zabumba e triângulo, também não era o mais comum, apesar de já existir. Foi Gonzagão que o fixou e aprimorou. Há quem afirme que o triângulo não era propriamente um instrumento, mas um objeto que os vendedores de biscoito tradicionais em várias cidades do sertão empregavam para chamar a atenção para sua chegada.

As letras seriam outra grande sacada. De um modo geral não existiam nos bailes tradicionais do sertão nordestino, onde as pessoas se reuniam principalmente para dançar ao som incendiário da sanfona. Humberto Teixeira as teria introduzido a partir de letras de canções folclóricas e cantos religiosos, mas carregando-as de temáticas que falavam diretamente ao coração de uma gente saudosa de sua terra natal, da qual tiveram de se separar pela impossibilidade de viver num sertão castigado pela seca. Nordestinos fora do seu hábitat, portanto, que traziam ainda viva na memória a lembrança de suas origens. Sertanejos já aculturados no ambiente urbano do eixo Rio-São Paulo que se conectavam a suas raízes principalmente pela memória, como aliás era o caso de Luiz e Humberto. Dessa forte presença da mensagem social e cultural nas letras cantadas por Luiz Gonzaga surgiriam verdadeiros hinos da vida nordestina, como a eterna “Asa Branca”, de dezenas de interpretações por artistas brasileiros mesmo de outras vertentes musicais, que se incorporaria definitivamente ao cancioneiro do Brasil.

A ascensão do “Rei do Baião” também se revestiria de outro importante significado para a gente do Nordeste, o do filho da terra capaz de vencer na cidade grande e poder influenciar todo o país com a força e a beleza da cultura de sua região. De fato, a chegada avassaladora da música nordestina pela via da obra de Luiz Gonzaga representou a abertura de uma nova referência estética que haveria de influenciar várias gerações de artistas. Não apenas contemporâneos do surgimento do baião, lotados na cultura fonográfica das rádios e dos discos, como também nomes que representariam novas tendências culturais e musicais no Brasil. Dos tropicalistas Gil e Caetano até a levada de bandas contemporâneas como os mineiros do Skank, passando pela geração de artistas de classe média de formação universitária, como Elba Ramalho e Alceu Valença, e de movimentos que igualmente apostariam na fusão entre a tradição e a modernidade tecnológica, como o Mangue Beat, de Chico Science. Tudo fruto de uma genial conjugação da força cultural e musical de uma região que até então pouco conhecida dos brasileiros com a contemporaneidade dos filhos da terra cada vez mais adaptados a um Brasil que se torna cada vez mais urbano. Fruto da pujança cultural da gente do sertão, que Luiz Gonzaga soube traduzir para o cosmopolitismo da capital do país, a partir daí ganhando o mundo.


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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O que está por trás de uma sexta-feira 13?

São Miguel e o dragão, de Rafael Sanzio

E eis que nos deparamos com a primeira sexta-feira 13 do ano. Para alguns um dia comum, como outro qualquer. Para outros, talvez a grande maioria, uma data recheada de simbolismo e significados, seja como prenúncio de boas coisas ou como indicativos de apuros pelo caminho. Mas o fato é que, popularizada pelo cinema com filmes de terror ou idealizada pelos interessados em assuntos místicos, a coincidência entre o dia 13 e aquele que para nós é o último dia útil da semana tem raízes muito mais antigas do que muitos poderiam pensar.

E uma delas certamente se refere àquele que é tido como o “Pai dos Números”, Pitágoras. O pensador grego que viveu no século VI a.C. acreditava que os números estavam na base de tudo o que havia na natureza, que assim podia ser conhecida em seus princípios essenciais através do estudo das propriedades numéricas. Para ele os números de 1 a 9 estavam mais próximos da divindade, sendo considerados puros e originais. Já aqueles formados por dois algarismos, com exceção do 11 e do 22, deveriam ser decompostos até se chegar a um dos números puros. Assim, o 13 seria pensado como 1 + 3, que daria origem ao 4, que no misticismo pitagórico se destaca pela formação das figuras geométricas regulares e equilibradas, como o quadrado e o retângulo, símbolos da razão e da objetividade. Uma característica portanto positiva num mundo moderno regido pelo conhecimento científico e pela precisão dos números.

Mas o 13 também contou com a história e seus personagens para receber um sentido negativo, e nesse ponto de vista a cultura cristã está repleta de episódios envolvendo o numeral. Um deles estaria relacionado aos conhecidos e misteriosos Cavaleiros Templários, que passaram a sofrer cruéis perseguições na Europa, depois de se recusarem a incluir em seus quadros o rei francês Filipe IV. Ele achava que seu trono estava em perigo pelo grande poder que nele era desfrutado pela igreja Católica e queria se abrigar na ordem. Enfurecido, o monarca teria ordenado no dia 13 de outubro de 1309 a extinção dos membros, o que inaugurou um período de muitas perseguições e intolerância pelo continente.

É também da cultura cristã medieval uma outra possibilidade envolvendo a sexta-feira 13. No período em que povos chamados “bárbaros” invadiram a Europa, algumas tribos de origem nórdica, de crença politeísta, passaram a amaldiçoar algumas de suas antigas divindades à medida que foram se convertendo ao cristianismo. Uma delas, Frigga, deusa do amor e da beleza, passou a ser repudiada e sobre ela foram sendo construídas muitas narrativas que expressavam suas supostas ligações malignas. Segundo uma delas, a antiga divindade e agora uma bruxa costumava se reunir com outras 11 feiticeiras e mais o demônio para amaldiçoar os cristãos. Mulheres, aliás, estariam sempre envolvidas nesses assuntos misteriosos e fantásticos, como se pode constatar, por exemplo, pelo dia de sexta-feira que muitas crenças místicas reputam a divindades femininas, como Vênus, Afrodite e até a Iemanjá do nossos cultos afro-brasileiros. Quase sempre perseguidas a amaldiçoadas pelos seus supostos dons divinatórios e encantadores.

A sexta-feira e o número 13 também aparecem relacionados a passagens bíblicas. Não se pode esquecer que a paixão de Cristo ocorreu numa sexta-feira, e que a Santa Ceia, momento decisivo da trajetória de Jesus, quando ele propõe a aliança com os apóstolos e anuncia o martírio ao qual será submetido, era composta por 13 pessoas, como se pode ver na cena clássica imortalizada por vários pintores do mundo cristão. Num sentido menos histórico e mais esotérico, o 13 convertido em 4, como vimos acima no misticismo pitagórico, além de remeter ao quadrado, também pode ser associado a outra figura geométrica carregada de simbolismo, a cruz, que lembra o sacrifício do Cristo e com isso enfatiza as ideias de redenção e transformação, tidas como caminhos fundamentais e inevitáveis para os seres humanos. Ah, e há também a figura da mãe de Jesus, Maria, que ganha importância no catolicismo e é encarada como a 13ª integrante do colégio apostólico, no lugar do traidor Judas. E foi ainda num dia 13, do mês de maio, que ocorreu uma das mais conhecidas das ditas “aparições” de Nossa Senhora, na cidade portuguesa de Fátima.

Estudiosos da Bíblia afirmam a presença do número 13 em pelo menos 19 oportunidades ao longo das Escrituras, o que faz dele um importante fator numa obra que frequentemente é analisada com apoio nas antigas ciências numerológicas. Principalmente naqueles momentos em que aparentemente não há uma explicação lógica para a opção por aquele número, como ocorre por exemplo quando os textos anunciam a circuncisão de Abraão aos 13 anos de idade, que Josué e seu exército conquistaram Jericó depois de dar 13 voltas em torno da cidade ou que foram gastos 13 anos para construir a morada do rei Salomão.

Para confirmar a teia de mistério envolvendo o número 13 basta lembrar também que ele está presente em uma das mais geniais descobertas da matemática, a famosa Sequência de Fibonacci. Encontrada no início do século XIII pelo italiano Leonardo de Pisa, está relacionada a antigas medidas que já haviam sido estabelecidas pelos gregos e refletiriam a perfeição das formas da natureza. A sequência na verdade trabalha com a ideia de um número como resultado da soma de seus dois últimos antecessores. O interessante da descoberta é que, a partir daí, foi possível entender as inúmeras proporções presentes no mundo natural, fazendo dela uma espécie de “medida divina”, como aliás buscavam os antigos.

E matematicamente não para por aí: o 13 também pode ser entendido como a soma do primeiro número primo (o dois) com o que imediatamente lhe antecede (o onze). Resulta ainda da soma dos quadrados dos dois primeiros números primos (22 + 22 = 13). Ufa! Revirado pela matemática, dá pra ver que não se trata de um número qualquer, e não espanta que esteja envolvido em tantas questões misteriosas e servido de pano de fundo pra tantas lendas e histórias. Falta dizer também que o 13 aparece em algumas das medidas estabelecidas para as grandes pirâmides do Egito antigo, e que no Tarô há o Arcano Maior XIII, a “carta da morte”, ao mesmo temida e admirada, porque pode significar tanto o bem quanto o mal, segundo dizem os que se dedicam a essa milenar forma de compreender a vida.

O fato é que em um contexto tão marcado pela lógica própria de um mundo cientificista, superstições, lendas e histórias fantásticas ainda parecem ser necessárias, marcando pontos de ligação com outros tempos e com características culturais que andam mais próximas de nós do que imaginamos. Se por um lado há uma certa da exploração da sexta-feira 13 atendendo a comercialismos e a construções de imagens no mundo publicitário, por outro não falta quem encare com seriedade essa combinação de dia da semana e número de forte apelo simbólico. Para alguns, prenúncio de momentos difíceis, pra outros sinal de um bom dia para se investir no futuro. Seja qual for a maneira com que as pessoas se colocam no mundo tecnológico e científico do século XXI, poucos reagem com indiferença a uma sexta-feira 13. Até mesmo os céticos, que podem viajar no imenso acervo de informações culturais que está por trás desse tema. E nessa, que é a primeira do novo ano que se inicia, que apostas você faria?

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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Professores e pais: o que ainda há para além das linhas em 2017?






























Fui alfabetizada em São Paulo, entre os anos de 1975 e 76, tendo como material didático principal a tão conhecida cartilha “Caminho Suave”, de autoria da professora Branca Alves de Lima. E o processo foi o mesmo com vários educadores colegas meus. Naquele tempo, não tínhamos acesso às novas tecnologias, por isso a tecnologia principal a ser consultada e “consumida” (pelas crianças em formação) era a cartilha.

A “Caminho Suave” apontava os modelos conservadores de família ideal para a época: mãe na cozinha ou servindo, pai na poltrona lendo, filhos brincando ou estudando, os avós na janela da casa ou na pracinha (avô lendo e avó tricotando), cachorrinhos no quintal. 










A edição da cartilha que utilizei (não revista nem atualizada) não trazia nenhuma imagem de negro ou índio, todos os personagens eram brancos, de cabelos lisos. Era como se famílias compostas, por exemplo, por avó, tio e neto não existissem, como se negros e índios não fizessem parte da realidade brasileira, como se a tarefa de limpar, cozinhar e servir fosse sempre da mãe, enquanto que o pai era aquele que pensava e tinha acesso aos bens culturais.

Todas as crianças eram muito bonitas, de bochechas rosadas, arrumadinhas em seus uniformes impecáveis. As malas escolares eram de couro brilhoso, e o caminho, naquelas imagens, parecia mesmo suave.
















O tempo passou, estamos em 2017, e lá se vão mais de 40 anos. Quatro décadas. Passamos por uma grande revolução tecnológica, e a Era Digital está aí, mas continuamos sabendo pouco, por exemplo, sobre os negros e os índios. Como educadores, pais e cidadãos precisamos colocar em pauta essa discussão.

Tenho conversado com muitos educadores que expressam não ter tido em sua formação inicial e continuada nenhum acesso ao tema. Posso afirmar que isso é mesmo um fato, pois, como educadora, também passei pelo mesmo problema, até o dia em que uma infeliz situação em sala de aula (uma criança negra sendo hostilizada por um colega de sala) me fez buscar ajuda. Então percebi a dimensão da falta de conhecimento, apatia e conformismo quanto à questão.
Passei a compreender que há uma população marginalizada no Brasil. Negros e índios estudam menos, têm salários menores, enfrentam enorme preconceito da sociedade, que, às vezes até hipocritamente, se esquiva do assunto. Mas muitas vezes esse afastamento acontece por desconhecimento do real sentido da palavra “preconceito”, que, conforme definição do Houaiss (grifos meus), significa “qualquer opinião ou sentimento, quer favorável quer desfavorável, concebido sem exame crítico” ou “ideia, opinião ou sentimento desfavorável formado a priori, sem maior conhecimento, ponderação ou razão”.

Então convido educadores, pais e cidadãos a usar a mais avançada tecnologia existente, a de mais alto nível, que é a nossa mente, para compreender que (para além das linhas) há desigualdade racial no Brasil, para abandonar o preconceito, e a partir dessa compreensão buscar desenvolver um trabalho educativo que aponte novos horizontes com efetivo desenvolvimento humano, tão necessário e urgente nos nossos dias.

Este texto foi uma breve introdução. No próximo, o tema será aprofundado, e então discutiremos de que forma os educadores podem contribuir para a conscientização e o exame crítico sobre a desigualdade racial no Brasil.

Como degustação, acesse os vídeos: https://www.youtube.com/watch?v=Sq4z2Vq2K1w e https://www.youtube.com/watch?v=29kzSogJESU&t=14s e conheça um experimento feito com crianças (entrevistas), que aponta de forma muito direta que “o racismo é mais forte do que todos pensam”.


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Crime e castigo no Brasil do século XIX

O morro da Favela, no olhar de Tarsila do Amaral
A segunda metade do século XIX se depara com importantes mudanças de conceito a respeito de certas questões na sociedade brasileira. As elites econômica e intelectual se veem às voltas com a necessidade de viabilizar um novo projeto de país, o que acontece sob grande influência das ideias liberais propagadas pelas potências hegemônicas de então, principalmente a França e a Inglaterra. Aí se desenvolvem algumas noções que vão se chocar frontalmente com as referências da maior parte da população brasileira, com suas visões de mundo baseadas em elementos culturais oriundos de tradições indígenas ou africanas, entre outras.
No cenário dos espaços urbanos no Brasil, onde a presença afrodescendente se faz bem mais evidente que a nativa, esse impasse cultural vai se aplicar à tentativa por partes das “cabeças pensantes” do país de relegar a plano secundário as manifestações culturais daqueles grupos que não expressem a visão influenciada pelo mundo europeu. É nesse contexto que as populações menos favorecidas, formadas basicamente de afrodescendentes, mestiços e outros grupos desprestigiados socialmente, vão ser alvo do discurso de desvalorização, o que acontece sobretudo a partir dos meios de comunicação representados pela imprensa escrita, então considerada fundamental num projeto de nação “desenvolvida”. Um dos mais evidentes traços desse processo é a marginalização de uma população que tem nas nascentes favelas e bairros operários seu hábitat e seu espaço de expressão cultural.
Assim, aspectos religiosos e biológicos se entrelaçavam para formar a base de definição de um tipo, que seria, no contexto da cidade moderna, relacionado às várias modalidades de crime. Da vadiagem à prática da violência, da tendência homicida ao charlatanismo, passando pelo perigo à “ordem pública”, ao desequilíbrio da sexualidade e da insalubridade que ameaça toda a cidade. Todos esses são ingredientes que apareciam com frequência nas diversas narrativas sobre as classes menos favorecidas, seja a crônica de certas regiões da cidade, sejam as notícias nos periódicos, estilos aliás que muitas vezes se confundem e colocam as ocorrências numa espécie de limiar entre a verdade e a ficção.
A primeira localidade ocupada pelos desterrados da reforma urbanística do Rio de Janeiro capital federal, o morro da Favela, é um bom exemplo dessa visão. Em 1900, apenas três anos depois de a prefeitura da capital ter autorizado a ocupação do local pelos veteranos que participaram da guerra de Canudos, a comunidade já era encarada aos olhos das autoridades e da opinião pública como uma espécie de antro de ladrões e marginais. Cinco anos depois, o engenheiro e jornalista Everaldo Backheuser, figura de participação importante na remodelação urbana da cidade, escreve na revista “Renascença” sobre a necessidade de dar fim à “pujante aldeia de casebres e choças” que destoam da estética da capital, já que estão “a dois passos da grande avenida (referência à avenida Rio Branco, passeio principal do centro da cidade). Em 1908, é a vez da revista “O malho” exibir uma charge na qual aparece Oswaldo Cruz, à frente da Delegacia de Higiene, ameaçando iniciar um processo de evacuação do morro da Favela. “A Higiene vai limpar o morro da Favella, do lado da estação de Ferro Central. Por isso intima os moradores a se mudar em dez dias”, diz a legenda que acompanha a figura.
Pronunciamentos como esses vão se tornando cada vez mais constantes e se estendendo a outras localidades no entorno do centro da cidade. Ganham destaque nesse processo as coberturas de acontecimentos policiais que se dão nos morros, e é aí que vamos nos deparar com um tipo de jornalismo que se destacaria pelo esforço de enfatizar os “perigos” das classes que moram nessas comunidades. Narrativas que ajudavam a estereotipar os primeiros morros cariocas, bem como os bairros populares e proletários, como “lugar sem lei”, onde a tendência delinquente da maior parte dos moradores o tornava um local que destoava do padrão “civilizatório” que se buscava para a capital e para o país.
A questão racial aparece aí de forma veemente e relacionada aos desvios éticos e civis atribuídos aos personagens que assomam nas notícias. Em raras ocasiões os redatores evocam em seus textos a questão do sujeito sem preparo para a vida de cidadão livre como uma possível explicação para sua presença em episódios ligados a desordens públicas. Aliás, raramente traziam quaisquer tentativas de justificação ou explicação, limitando-se a abordar os supostos malfeitores, enfatizando seus crimes, seus perfis patibulares e, claro, sua condição de afrodescendente.
A vadiagem também está relacionada a certas questões que se apresentam no mundo do trabalho nos anos subsequentes à abolição da escravatura. É que, liberados da repressão que os obrigava à atividade determinada por seus senhores, muitos ex-cativos passaram a ver no trabalho realizado nos moldes do capitalismo praticado no Brasil, no limiar entre os séculos XIX e XX, uma nova forma de escravidão, no sentido de que continuariam sendo submetidos a longas jornadas de trabalho e com remunerações muito baixas, além de permanecerem subjugados a uma forte ordem hierárquica, ainda que não a do proprietário de escravos.
Dessa forma, muitos afrodescendentes preferiram viver de economia de subsistência ou de pequenas atividades de exploração natural destinadas a sanar as necessidades mais imediatas, numa situação que, além do egresso da escravidão, era partilhada também pelo trabalhador não escravo que, por conta da chegada de mão de obra imigrante, perderia espaço no mercado de trabalho e precisaria se submeter a situações desvantajosas. Como o interesse dos grandes proprietários era de que os gastos com mão de obra permanecessem próximos ao do trabalho cativo, partia deles – através de seu maior acesso aos meios de comunicação – a disseminação de uma visão que buscava desqualificar o trabalhador, de alguma forma construindo sobre eles o estigma do marginal ou do vadio.
As crônicas e notícias de crimes envolvendo marginais afrodescendentes raramente estabeleciam alguma relação com o recente passado escravista, como faziam antigos proprietários de terra ou empresários. Preferiam a omissão desse dado, o que acabava abrindo espaço para uma visão racial da criminalidade. Em outras palavras, colaborou para fortalecer a ideia de que afrodescendentes, por questões “naturais” e/ou culturais, eram propensos a posturas repudiadas pela visão “civilizada”, como a marginalidade e a vadiagem.
O Brasil das cadeias lotadas de indivíduos em sua maioria não brancos, da barbárie humana praticada no crime que hoje se abriga nas comunidades pobres do país, a violência policial que se projeta preferencialmente sobre os mais humildes e moradores de áreas desprestigiadas das cidades é uma consequência lógica dos discursos que as elites brasileiras ajudaram a propagar através de uma mídia quase sempre subserviente a um projeto de país subordinado às influências de outras nações. Assim foi aberto o caminho para a indiferença de grande parte da população brasileira para as questões que dizem respeito aos pobres, aos afrodescendentes e a seus corolários do mundo de hoje, os marginalizados de todo tipo.
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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

O ser humano ganha um novo órgão


























Pois é, professor, vamos ter que rever nossas aulas de Ciências na hora de ensinar nesse ano letivo. Por mais incrível que pareça, o ser humano ganha mais um órgão!

Não… Ele não surgiu de repente… O mesentério já era um velho conhecido. A primeira menção de sua existência foi declarada por ninguém menos que Leonardo da Vinci em um de seus escritos sobre anatomia humana no século XVI. Porém foi menosprezado todo esse tempo e só agora foi elevado à categoria de órgão humano. Antes, era visto como um simples ligamento do aparelho digestivo, formado por estruturas segmentadas. Era uma parte do corpo tão desprezada, que quase não aparecia nos diagramas clássicos do aparelho digestivo.

Mesentério Leonardo da Vinci

Foram seis anos para confirmar que o mesentério é um órgão único e contínuo. Os cientistas pretendem entender melhor sua função e avançar no conhecimento a fim de curar alguns problemas considerados misteriosos, como, por exemplo, casos de dores abdominais.

Os estudantes de medicina já começam a aprender sobre o mesentério nas universidades, incluindo-o na lista dos quase 80 órgãos do corpo humano, abrindo portas para a criação de um ramo específico no assunto, a ciência mesentérica. Bacana, não é?



O pesquisador J. Calvin Coffey, da Universidade de Limerick, na Irlanda, mostra que, apesar de o mesentério ser de conhecimento científico há mais de 100 anos, sua descrição anatômica não era igual à que temos hoje. O mesentério é uma dobra dupla do peritônio – como se chama o revestimento da cavidade abdominal – que une o intestino com a parede do abdômen e permite que ele se mantenha no lugar.

Fontes:


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

A primeira missão: fundir a extinta pasta de Esporte e Lazer com a Educação

César Benjamin é o atual Secretário de Educação do Município do Rio
César Benjamin assume a Secretaria de Educação do Município do Rio com a meta de colocar metade dos alunos no regime de tempo integral. O prazo para alcançar esse objetivo é até 2020, quando se encerra a atual gestão. Além disso tem a missão de ampliar as vagas nas creches. Esse aumento do atendimento deverá ocorrer através de parcerias público-privadas.

Porém, de imediato, assume agora com um desafio extra. Juntar as máquinas administrativas e os programas de duas pastas fundidas em uma só: a extinta Secretaria de Esportes e Lazer com a da Educação. Pelo menos até primeiro de fevereiro, quando começam as aulas, esse esboço já deve estar desenhado. Para muitos, temáticas distintas e de difícil administração conjunta. Para outros podem ser trabalhadas de maneira a se complementarem pois seriam assuntos afins. Porém, para não propagar uma possível polêmica, o próprio Benjamin assume que esse processo demanda tempo e trabalho.

Começar a formatar a fusão de Educação com Esporte e Lazer e definir medidas urgentes... Esses primeiros arranjos ainda consumirão algum tempo”.

O Secretário ainda promete abrir um canal de diálogo direto com os profissionais da educação e os pais de alunos.

Quando as coisas se estabilizarem, pretendo reservar um dia por semana para me reunir regularmente com professores e demais funcionários que estejam atuando nas escolas, para manter uma interação permanente com quem está na ponta da estrutura. Também quero encontrar pais de alunos regularmente. Isso é essencial para obter uma visão mais precisa de como, de fato, as coisas estão acontecendo lá onde elas são importantes, nas escolas”.

No que depender de entrosamento com o novo chefe de executivo do município já há a vantagem de ser um antigo colaborador. Desde 2007 está à frente das ações sociais de Marcelo Crivella. A aproximação foi anterior a 2006, quando Benjamin compôs como vice a chapa encabeçada por Heloísa Helena à Presidência. Dois anos antes, já tinha participado da campanha para a chefia do executivo do estado, tendo sido apontado na época como um dos responsáveis pelo projeto de programa de governo. A partir de 2015 passou a ocupar um cargo no gabinete do então Senador Marcelo Crivella, em Brasília.


César de Queiroz Benjamin, de 62 anos, é jornalista e antropólogo. Foi até o ano passado responsável pela Editora Contraponto e colunista do Jornal Folha de São Paulo.


A Principal Qualidade do Professor do Século XXI





























Os tempos mudaram, e as gerações atuais pensam e vivem de forma bem diferente das gerações das décadas anteriores. A conexão digital traz respostas imediatas às dúvidas, os conteúdos são apresentados de forma qualitativa e diversificada, e, por isso mesmo, os papéis da escola e do professor também se renovam.

O professor não precisa ter todas as respostas, nem mesmo ser um “transmissor” de informações. Ele é hoje um “orientador” nesse processo fantástico que se chama aprendizagem. Mas, por falar em aprendizagem, como andam os resultados do Brasil? As avaliações de aprendizagem feitas por organismos nacionais (ENEM) e internacionais (PISA) apontam que a escola brasileira fracassa ao tentar manter os encaminhamentos e as metodologias arcaicas do passado.

Em 2015, setenta países participaram do Programme for International Student Assessment (PISA), o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, que a cada três anos avalia o desempenho de alunos na faixa dos 15 anos, priorizando Matemática, Leitura e Ciências. O resultado saiu em dezembro de 2016, e no ranking o Brasil ficou na 63ª posição em Ciências, na 59ª em Leitura e na 66ª em Matemática.

As avaliações do ENEM e do PISA, por exemplo, priorizam as aplicações de conhecimentos às situações práticas da vida, deixando evidente a desordem de metodologia e encaminhamento. É necessário repensar o desafio da aprendizagem, que hoje precisa estar centrada em tornar o aluno capaz de dar sentido às coisas, compreendê-las e, o mais importante, contextualizá-las.

Esta semana eu conversava com uma aluna do 8º ano do Ensino Fundamental, a qual, por uma questão ética, vou chamar de “Maria”. Ela tentou calcular a quantidade de água que deveria ser consumida pela família toda (5 pessoas) durante o período de um mês, supondo que cada um dos membros da família consumisse 2 litros por dia, conforme recomendado pelo nutricionista. A pergunta era: quantos galões de água (de 20 litros) serão necessários por mês (30 dias) se cada membro da sua família (5 pessoas) consumir 2 litros de água por dia? O Resultado? Maria não conseguiu calcular. Deu várias respostas equivocadas, mas na realidade não pôde efetuar os cálculos. Esse tipo de problematização é um exemplo clássico de atividade proposta pelas avaliações nacionais e internacionais, e a dificuldade de Maria é a da maioria. Tudo isso nos faz crer que a escola precisa desesperadamente se reinventar, abrir espaços para as inovações no campo metodológico, e essa mudança passa por um dos principais atores desse processo, o professor.

E isso suscita a questão: qual a principal qualidade do professor do século XXI? O que ele precisa trazer consigo para ser efetivamente um inovador em seu meio de atuação nesse novo milênio? O sábio filósofo Cortella aponta a necessidade de esse professor ter dentro de si a chamada “INSATISFAÇÃO POSITIVA”, que é a qualidade de sempre querer mais e melhor, mas não a qualquer custo, muito menos apenas para si, e sim para todos. 

No caso do professor, quando há essa inquietação, ele tenta se reinventar, busca excelentes resultados em seu trabalho, mesmo em escolas mais tradicionais e estáticas. Essa insatisfação positiva o leva a avaliar os próprios limites, com o objetivo claro da superação, que direciona o olhar para o problema em busca de uma solução.

Professor, 2017 chegou. O ano se renovou, mas algumas questões urgentes permanecem. Uma delas é não se acomodar com o alarmante quadro do ensino apontando as dificuldades gritantes dos alunos com Leitura e Interpretação, Raciocínio Lógico Matemático, bem como a falta de conhecimento prático em Ciências.

É preciso lançar mão da INSATISFAÇÃO POSITIVA”, aquela que nos mobiliza intensamente para buscar soluções quanto a como orientar as melhores rotas de aprendizagens, de forma que façam sentido e tragam expriências significativas, aquelas que serão naturalmente “importadas” por nossos alunos (levadas para dentro da memória de longo prazo) e trarão resultados satisfatórios para muito além de apenas um PISA ou um ENEM, pois desenvolverão potencialidades de forma brilhante e trarão o sentido maior do aprender sempre e evoluir.
Para concluir, uma frase de Henry Adams: “Professores tendem à eternidade; nunca poderão saber onde termina sua influência”.

Que 2017 seja marcado pela nossa influência e pela nossa INSATISFAÇÃO POSITIVA!



segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Um professor vestido de “serial killer” aplica provas





















Um dia normal para uma universidade. Um serial killer aplica as provas finais para aprovar os alunos. Ops... um serial killer aplicando provas? Como assim?

É exatamente isso que você leu! Na Universidade Federal do Acre (Ufac), o serial killer Jigsaw, da série de filmes Jogos Mortais, apareceu para aplicar a prova final de obstetrícia veterinária. O “maníaco”, na verdade, era o professor Fernando Souza, cuja fantasia chamou a atenção dos alunos que o viram vestido daquele jeito. As fotos do docente se popularizaram na internet ao serem postadas em uma página do Facebook.



















A intenção de Jigsaw, ou melhor, Fernando, era interagir com seus alunos, fugindo um pouco do ensino tradicional. A ideia surgiu quando o educador percebeu que seus alunos reclamavam de sua exigência nas avaliações, e então veio à cabeça a ideia de brincar com seus pupilos, tentando amedrontá-los. A fantasia também ajudou no ritmo da prova. Jigsaw aterrorizava os alunos; eles tinham que elaborar as questões e os outros colegas respondiam. Os pontos de cada questão aumentavam de acordo com o nível de dificuldade.

Essa brincadeira ajudou na despedida dos alunos, que estavam se formando. Eles acharam que foi um gesto carinhoso e inovador.
Com certeza sentirão falta dele!

Fonte: G1

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

O ano-novo e o homem antigo

Seres humanos na fase agrícola

Praticamente o mundo todo acaba de celebrar mais uma virada de ano. E a esmagadora maioria das pessoas que participam das mais variadas formas de festejar esse acontecimento aproveitou para utilizá-lo como marco de algum tipo de mudança, projetando a esperança de um futuro melhor num novo ciclo que se inicia. Mas ao cultuar o aspecto de “renovação” presente nesse momento, cada um de nós na verdade está praticando uma das mais antigas ações da humanidade. Celebrar a virada de ano é algo tão primário para a espécie humana que praticamente se confunde com a própria história de nossa classe como ser vivo.

Segundo os cientistas, isso está relacionado ao que aconteceu aos nossos ancestrais de aproximadamente 13 mil anos atrás. Eles tinham se tornado excelentes caçadores e a alta performance nessa atividade os levava a ter uma vida nômade, isto é, se deslocavam tendo como referência a possibilidade de encontrar suas vítimas, buscando outro local quando elas se tornavam menos abundantes. Um outro fator importante está presente nesse momento. É que a essa altura nossos ancestrais já tinham se desenvolvido intelectualmente a ponto de sustentar com regularidade algo que os cientistas identificam como instintivo em nossa espécie: o sentimento religioso. Assim que atingem determinado nível de maturidade biológica, todos os agrupamentos humanos começam a praticar alguma coisa que podemos classificar como religião.

O resultado dessa instituição nos grupos sociais daquele momento levava a que os membros se mantivessem mais unidos e coesos, ou seja, as práticas em torno dos rituais religiosos acabavam servindo para criar um sentimento de unidade e pertencimento que pode ser visto como o protótipo daquilo que muito mais tarde, e com outras formulações, vamos chamar de nacionalidade. Confiantes em suas divindades e amparados na coesão tribal, nossos ancestrais “homo sapiens” se transformariam nos maiores predadores da natureza. O resultado, digamos, ambiental dessa evolução seria um primeiro grande problema para nossos antepassados: a caça indiscriminada diminuiu consideravelmente o número de animais que habitualmente serviam de alimento, situação que seria também agravada, segundo os cientistas, por uma espécie de miniaquecimento do planeta ocorrido naquele período. O fato é que esse momento representou uma das primeiras grandes crises por que passaria a espécie humana, que nesse caso tinha seu modo de vida ameaçado por um fator antes de tudo biológico, a escassez de proteínas.

Apesar de não ter sido um fenômeno global, isto é, o problema não apareceu para as várias tribos ao mesmo tempo, pode-se dizer também que não foi algo isolado, até porque, mesmo vivendo em situação de quase total isolamento, os grupos algumas vezes mantinham contato, quase sempre para guerrear, o que certamente passou a ocorrer com mais frequência quando o problema de disputar a caça se tornou mais frequente. A solução encontrada para essa situação não foi muito diferente da que se pratica atualmente no caso de grandes crises econômicas. Só que, em vez de imprimir dinheiro como fazem os bancos centrais, nossos ancestrais apostaram em cultivar sementes e, para tal, inevitavelmente tinham que esperar os ciclos que os produtos da terra precisam cumprir. Dessa maneira de resolver o problema da falta de alimento viria uma grande surpresa. É que nossos antepassados acabaram percebendo que o cultivo de produtos agrícolas permitia que se sustentasse um número maior de pessoas em um mesmo espaço. Assim, os dias de nomadismo foram gradativamente se extinguindo e dando lugar a agrupamentos humanos sedentários, cada vez mais numerosos e consequentemente com instituições mais complexas.

Uma delas seria fundamental para a manutenção daquele novo modo de vida: a observação da natureza e dos seus ciclos, cuja compreensão era necessária para determinar a hora de plantar e colher os alimentos. Surgem assim os primeiros calendários, que marcam, não dias, meses e anos como os atuais, mas períodos relativos às diversas divindades que nossos ancestrais entendem relacionadas ao milagre de fazer brotar da própria terra a alimentação. Nesse momento já dá pra deduzir que nossos antepassados acabaram percebendo que os ciclos têm começo e fim, e que as etapas mais importantes desse processo precisavam ser cultuadas e celebradas.

O início de tudo (o ano-novo) recebia certamente uma atenção especial e a incerteza quanto ao que podia ocorrer com o novo ciclo de atividades da terra levava a que os antigos vissem o começo do novo ciclo como um momento de maior confiança na divindade da natureza, daí ser celebrado com todo envolvimento, afinal era uma esperança que tinha de ser renovada, pois dela dependia a própria manutenção da vida. Qualquer semelhança com nossa maneira otimista e esperançosa de encarar a virada de ano não é mera coincidência.

Outras importantes conquistas da espécie humana também estão de alguma maneira relacionadas a essa fantástica mudança do modo de vida dos nossos antepassados. O avanço científico, por exemplo. Quem poderia imaginar que o extraordinário conhecimento sobre o cosmos e os fenômenos astronômicos teria sua origem na arte de observar o céu e as estrelas, algo indispensável para conhecer os ciclos naturais? Os signos do zodíaco não são nada além de marcações que nossos antepassados começaram a fazer no firmamento para monitorar os movimentos dos astros e orientar seus trabalhos agrícolas.

Para nós do mundo cristão o ano-novo, isto é, o momento em que o ciclo se reinicia, ainda vem acompanhado de uma outra marcação: o auge da estação fria no hemisfério norte também é utilizado para reconhecer o funcionamento da natureza. Era o momento de – copiando outros agrupamentos organizados da natureza, como as formigas – armazenar alimentos. O natal (quando se celebra o nascimento do personagem central da cristandade) assim tão próximo ao ano-novo tem a ver com esse momento determinado pelas estações do ano. Os romanos comemoravam o início do período gelado na Europa como uma celebração especial, o “Natalis Solis Invictum” (Natal do sol invencível), uma tradição que se ornou de um significado extremamente sagrado para aquele povo, mesmo que o sentido de cultuar as divindades como praticavam os nossos ancestrais tivesse se perdido. Assim, não surpreende que, para impulsionar o cristianismo que ganhava cada vez mais força em Roma, o imperador Constantino determinasse, no século IV, que o nascimento de Jesus fosse celebrado na data em que já se comemorava o solstício de inverno do hemisfério norte.

Assim, seja qual for a maneira pela qual você celebra a passagem do ano, saiba que, ao fazê-lo, você está se conectando aos nossos ancestrais de muitos milênios atrás, e está, como eles, prestando algum tipo de culto a alguma força da natureza. Está principalmente se ornando de um sentimento de esperança e otimismo que tem tudo a ver com a aventura humana no planeta. Não é à toa que tendemos a reservar momentos como esse para a tomada de decisões que julgamos necessárias para que a vida melhore. É a esperança de garantir a nossa colheita interior. Um feliz 2017 para todos!!!

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