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segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Proposições para uma educação inovadora em 2017

Eu não aprendo só na sala estudando, eu aprendo com os meus amigos, eu aprendo em oficinas...” Kayo Pereira, 9 anos, educando do Projeto Âncora

O circo é uma ferramenta importante... desperta nas crianças, de maneira lúdica, o trabalho em equipe e a confiança uns nos outros, além dos benefícios físicos...” Penha Cerícola, Educadora Circense

Está sendo apresentada uma série de textos que destacam as PROPOSIÇÕES PARA UMA EDUCAÇÃO INOVADORA EM 2017. Nos dois últimos, conversamos inicialmente sobre a necessidade de DESENVOLVIMENTO DE COMPETÊNCIAS SOCIOEMOCIONAIS, que, como o próprio nome já evidencia, têm relação direta com o social e com o emocional, e, na prática, são traduzidas como: AUTOCONHECIMENTO, AUTONOMIA, ESTABILIDADE EMOCIONAL, SOCIABILIDADE, CAPACIDADE DE SUPERAR FRACASSOS, CURIOSIDADE, PERSEVERANÇA, dentre outras. Foi também apresentado o DESENVOLVIMENTO DE COMPETÊNCIA COGNITIVA, que é a capacidade de movimentar um conjunto de elementos da ordem do pensamento, da linguagem, da percepção, da memória, do raciocínio, da estratégia, dentre outros que fazem parte do intelecto, para abordar e resolver situações complexas. No texto de hoje, vamos apresentar a terceira proposição inovadora:

APLICAÇÃO DE MODELOS INOVADORES E DIVERSIFICADOS DE ENCAMINHAMENTO PEDAGÓGICO.

Para tornar a apresentação mais didática, elencamos os tópicos com pistas importantes para a mudança inovadora.


  1. OS ESPAÇOS: FÍSICOS, DIGITAIS E VIRTUAIS
É saudável sair do espaço fechado da sala de aula e procurar uma diversidade de lugares e processos de aprendizagem individualizados e em grupo. Assim, a paisagem, ou seja, o retrato da sala de aula não será mais a disposição tradicional de 30 ou 45 estudantes sentados, mas quatro a cinco alunos em um lado, atuando em grupo, e outros cinco no outro lado, trabalhando individualmente, além de dispor outros em novos espaços (virtuais ou digitais), de maneira que a escola se torne um local de enorme diversidade de lugares e processos de aprendizagem.

Para ser possível aplicar um modelo inovador de encaminhamento pedagógico, é preciso preparar os ambientes de aprendizagem, os espaços. As salas de aula tradicionais, que organizam cabeça atrás de cabeça em fila indiana, estão com os dias contados (se depender de mim), pois há um novo cenário de aprendizagem que precisa ser implementado.

Observe nas imagens a seguir algumas sugestões quanto a formas de organizar os espaços de aprendizagem:



Os espaços de aprendizagem podem e devem ser variados, por vezes ampliados; em outras ocasiões mais diluídos ou se apresentarem de diferentes formas, podendo, inclusive, ser digitais e/ou virtuais. É importante não estar sempre no mesmo lugar para aprender e, mesmo que não haja muita opção, procure diversificar dentro da sala de aula e no espaço fora da escola. Combinar com a comunidade (comércio local, pais de alunos) a realização de visitas externas também pode ser uma excelente estratégia.

  1. DIVERSIFICAÇÃO DE ATIVIDADES E FORMATOS
O novo cenário educacional da era digital também pede diversificação de atividades (em grupo, individuais e coletivas). É possível disponibilizar um “bem bolado” que congregue atividades analógicas e digitais, algumas com profunda interação física e outras com encaminhamentos que privilegiem interação virtual eficaz.

O fundamental é ter claro que o educando não é mero receptor, e sim alguém que interage, é cada vez mais o protagonista do processo de aprendizagem, tem interesses e necessidades. Aí, sim, História, Geografia, Matemática e demais disciplinas serão exploradas com significado e não mais como ilhas isoladas e desconectadas. Assim que acionadas, essas áreas poderão responder às demandas dos alunos, gerando um conhecimento significativo que ficará guardado para sempre na memória de longo prazo do educando. Assim, os caminhos a serem trilhados para conhecer terão outro sabor.
Quando os conteúdos das áreas do conhecimento são trabalhados isoladamente, sem significado aplicado à realidade do aluno, em geral são esquecidos, pois não lhe fazem sentido. Quanto a isso, a neurociência nos ajuda a compreender que a nossa memória de longo prazo não guarda o que não tem significado. Isto é, ela não vai “ancorar” um conteúdo desconectado, isolado, que acabará caindo no esquecimento, se perderá completamente, pois não tem significado para o educando. Por isso é tão importante contextualizar, dar sentido, tornar significativo.

  1. O EDUCADOR COM ATITUDE DE CURADOR

Os sábios Cortella e Dimenstein trazem um novo conceito para a pauta da educação na era digital, a ideia do educador que atua como uma espécie de curador com seus educandos.
Está constatado que, durante muitas décadas, o acesso ao conhecimento foi feito por meio do educador. Ele transmitia. Hoje sabemos que os educandos chegam direto às informações por meio digital. Portanto, o papel do educador não é mais o de transferir conhecimentos, e sim o de atuar como um organizador da informação, que ajudará os alunos a construírem a própria compreensão, para darem sentido a esse conhecimento. Cabe ao professor conduzi-los à pesquisa, oferecer orientações claras, promover trabalhos em diferentes formatos, além de agir protegendo, guiando, como quem tem uma preciosidade em mãos e deseja que se desenvolva plenamente, que cresça, realize-se, alce voos e vá em busca de realizações e vida autônoma em diferentes níveis. Agindo assim, o educador vai organizando, dando sentido às atividades, disponibilizando as formas de acesso ao conhecimento, guiando e não mais ministrando conteúdos. Cortella ressalta que, com as novas tecnologias e o acesso acelerado à informação, é preciso olhar para esse mar infinito de possibilidades e diferentes vieses e selecionar “O QUE REALMENTE IMPORTA”. Significa que o que interessa é a relevância daquela informação em relação ao contexto, para que “haja fertilidade”. Quantos anos de aprendizado da língua portuguesa cada um de nós teve ao longo da vida escolar? Desse tempo de estudo, o que sabemos de verdade, o que se tornou conhecimento (ou seja, inesquecível e seletivo)? Se eu lhe perguntasse: o que é predicado verbo-nominal, você saberia responder e dar um exemplo? Eu confesso que não sei. Portanto, é preciso selecionar o que realmente importa e de que forma podemos orientar a aprendizagem de maneira que faça sentido, seja apreendida. Despejar uma enxurrada de informações sobre o aluno é perder o tempo dele e o nosso em algo que não fará o menor sentido para ninguém.
Cortella explica que o verbo “importar” significa aquilo que você leva para dentro. Portanto, saber o que importa é fundamental para o educador-curador, para assim ele saber que “o que importa é o que importa”. O educando não vai levar para dentro informações desconectadas e sem fertilidade para ele; só vai dar entrada de verdade, importar, aquilo que tem relevância para o seu contexto. Ele filtra o que está sendo transmitido e só vai se tornar conhecimento aquilo que lhe importar.

Captou? Acompanhe-nos na próxima semana, quando apresentaremos a quarta proposição para uma escola inovadora: a Tecnologia Digital e os Modelos Híbridos. Até lá!
Para aprofundar o conceito de professor-curador, acesse a palestra completa do educador e filósofo Cortella, disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=RsDGtkecUhA>.